A LENDA DAS LARANJEIRAS
por Marizé
Conta a tradição que outrora existiram por todo o Algarve muitas mouras encantadas,
por ser o “encantamento”, a única forma de as poder libertar da maldade e crueldades
humanas. Desde os tempos mais remotos a moirama habitava a Península, deixando uma
presença, nas crenças, superstições e costumes que ainda hoje é visível a olhos
vistos. Perto do Cerro da Cabeça, existia um palácio subterrâneo, cuja maravilha é
impossível descrever. Quando um dia um pastor, corria atrás duma ovelha que se
afastara do rebanho, veio esta cair por um orifício, através do qual, ele desceu na
ânsia de procurar a ovelhinha. Enorme espanto o seu, ao ver que junto dela, estavam
três formosas princesas mouras que a acariciavam com ternura. Facilmente pode
verificar que se tratava dum palácio, maravilhoso, cheio de lagos de água, onde as
princesas se banhavam mostrando a nudez dos seus corpos... Ali era um mundo secreto
onde ninguém podia entrar...
As princesas ao verem o pastor, ficaram atónitas perante a sua presença...
O pastor muito atrapalhado murmurou:
- Peço desculpa, mas foi apenas um acidente! A ovelha é minha, eu sou pastor, guardo
os rebanhos, sou humilde, não vos vim fazer mal!
Nós somos três irmãs gémeas Mara, Mariam e Marisa, filhas do Rei das Grutas. Foge
daqui antes que sejas visto por ele! Mas deixa aqui a tua ovelhinha para nós! Podes
vir vê-la, apenas num dia da semana, mas tem cuidado! Vem ao escurecer do dia!
O rapaz resignou-se em oferecer a ovelha!
As lindas mouras eram autênticas pérolas de Chenchir! Nos jardins subterrâneos do
Palácio das Grutas, haviam extensos laranjais que eram símbolo de pureza e
virgindade. As mouras viviam escondidas nas grutas dos rochedos. Receavam os
invasores, que com a sua violência sequestravam as donzelas com intuito maquiavélicos
de as possuir pela força.
Como é natural o rei das grutas vivia com receio. Temendo a invasão que dominava o
sul do território.
Quando o pastor chegou com uma ovelha a menos, logo o maioral, quis saber o que
acontecera..
- Onde perdeste a ovelha, rapaz?
- Sei lá! Nunca mais a dei apanhada! Sumiu!
Embora não dissimulando o seu mau humor, por fim disse:
- Deixa estar que havemos de ver isso!
Não desistindo da sua intenção, um belo dia seguiu o rapaz e quando o viu sumir pela
terra abaixo... exclamou:
- Aqui há gato! Tenho de descobrir!
O pastor visitava secretamente as raparigas, quando podia. Desse convívio ía ganhando
forma a sua afeição especial por uma delas. Gostava da Mara, de todas a mais
bondosa. Certo dia, reparou que elas iam guardando as flores secas de laranjeira, ao
mesmo tempo que misturavam com camomila, tília, S. Roberto, para fazerem poções, com
doses apropriadas, verdadeiros segredos dum sono cor de rosa. Esta preparação, cujo
segredo era da competência do velho rei, conhecedor da farmacopeia, era um chá que
era servido pelas lindas escravas, em baixelas de ouro, no final dos banquetes ou
orgias, quando se pretendia que o adversário rolasse pelos tapetes, como nos campos
de batalha. Quantas vezes os mouros atraíam ao local, formulando um convite amigável,
muito bem forjado, duma opípara refeição acompanhada do famoso elixir - poção
maravilhosa que os fazia adormecer e que os levara a ganhar castos e castelos. Por
outro lado, salvavam a honra ameaçada das suas donzelas.
Tantas vezes foi o pastor visitar as raparigas, que começou um ídilio amoroso com a
Mara. Estava na posse de todos os segredos dos mouros.
O patrão via o ar de felicidade que o pastor aparentava, por outro lado observava que
ele não se incomodara muito, com o desaparecimento da ovelha, quando ele amava tanto
o seu rebanho.
- Não pode ser!
Por fim, resolveu seguir-lhe o rasto e combinou com uns amigos para que o seguissem.
Quando ele desceu às cavernas, acompanhado dum grupo de homens, meteu-se pela
abertura das grutas e menos ágil, veio cair, soltando um grito tão estridente que
entoou em todo o palácio subterrâneo. Perante tal burburinho, desperta o rei mouro e
toda a moirama surge pelos cantos, desse mundo misterioso de alvura do lindo Palácio
das Grutas, rico de estalactites e estalagmites, verdadeiros rendilhados de estátuas
naturais de fino recorte, um mundo colossal de alabastros e mármores.
- Minhas filhas, minhas filhas, a vossa honra... a flor de laranjeira não destes a
beber o elixir... Traístes vosso pai permitindo a entrada de intrusos nestas grutas.
- Vou espalhar as folhas por esta região de cada um sairá uma nova árvore, já vós
que não cuidastes da vossa reputação, que não tivestes cabeça para pensar, ficareis
para sempre no fundo deste monte transformadas em cavernas, em estalactites. Assim as
laranjeiras cresceram à superfície e as mouras com saudades da neve não são mais que
as brancas estátuas escondidas do velho cerro para todo o sempre.
Mas no auge do distúrbio, perante tal confusão, o pastor conseguiu fugir com a Mara
para o cerro de S. Miguel e mais tarde, resolveram casar para mostrar ao mundo a
pureza da sua jovem, pois Mara merecia a flor da virgindade. Ela e seu pastor eram
dignos e puros de sentimentos. Sem esquecer o que aprendera, ela foi a primeira noiva
a usar como símbolo a flor da laranjeira. Toda vestida de branco com um lindo manto
de tule, ostentava uma linda coroa de flores naturais de laranjeira. Quando ela vai
ao cimo do cerro, atira o seu ramo de noiva pelo ar, desde a encosta ao vale, a
terra encheu-se de lindos laranjais e uma nuvem de perfumada a flores de laranjeira,
evolou por toda a atmosfera. Uma enorme nuvem branca levou os noivos em viagem
nupcial.... E quando as laranjeiras floriam , o povo cantava assim:
Linda flor de laranjeira
Nas hortas e nos pomares
Da rapariga solteira...
Que pura vai aos altares.
E desde então a velha aldeia e seus arredores, encheram-se de famosos
laranjais e da lenda restam ainda as famosos grutas, que ainda hoje existem, um mundo
de maravilhas que os deuses da terra vão esquecendo.
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Licor de laranja, docinho docinho!
Doce de laranja para comer com queijinho de cabra ou como lhe apetecer!



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